quarta-feira, 14 de abril de 2010

Dona Francisa: 80 anos de Bom Fim

Foto por Renata Galvão


Um bairro pacato coberto por árvores e formado por algumas residências, pequenas lojas e poucas oficinas. Esse foi o cenário que Ana Francisca da Rosa Moacir, 98 anos, se deparou há 88 anos atrás quando chegou na cidade de Porto Alegre, bairro Bom Fim.

Natural de Iraí, município localizado no norte do Rio Grande do Sul, Ana Francisca nasceu, cresceu e viveu até os nove anos em uma tribo indígena que habitava o município.

- Não recordo muito bem como eu vivia naquela época, os costumes, a rotina. Eu era muito pequena, e hoje a idade me deixou com memória seletiva. Mas lembro que era bom – comenta a senhora revirando recordações do passado.

No ano de 1922, Ana Francisca, então com 10 anos de idade, começou a trabalhar como babá da filha mais nova de uma rica família de Iraí, os Leitão. E no final desse mesmo ano, a família decidiu buscar novas oportunidades na capital do estado. O pai, a mãe, o filho mais velho, a filha mais nova e a babá de 10 anos de idade partiram para Porto Alegre.

- Nunca mais vi meus pais, e nunca consegui guardar as feições do rosto deles na memória. Na realidade, é como se eles nunca tivessem existido. Acabei me tornando parte da família Leitão, e com eles eu vivo até hoje.

Buscando novas oportunidades de vida, a família se instalou no bairro Bom Fim, onde descobriram mais tarde ser um bairro de Judeus.

- Nossa família era, sempre foi e ainda é muito católica. Chegamos no bairro e nos instalamos em uma casa não muito grande, mas também não muito pequena. A casa era perfeita para 4 pessoas, 1 babá e acho que umas 2 empregadas. Só depois de algumas semanas ficamos sabendo que o bairro era da comunidade judaica (risos). Mas a vizinhança sempre nos recebeu bem.

Ana Francisca, mais conhecida como Chica ou Chiquinha, que é como seus netos e bisnetos a chamam, viveu no bairro Bom Fim até o ano 2000, que foi quando se mudou com a neta “emprestada” Miriam Leitão, de 64 anos, para o bairro Bela Vista com o objetivo de morar mais perto dos bisnetos e tataranetos.

- Minha família fica braba comigo, mas não adianta eu não gosto deste bairro. Acho tudo muito novo, diferente, e nao encontro aqui nenhum ponto ou local que me faça lembrar do passado. Já estou com 98 anos, sou velha, e não me venha com eufemismos como idosa. Sou velha e quero me sentir em casa, sendo assim, o novo me deixa desconfortável e deslocada.

Chiquinha só gosta de deixar sua atual casa e abandonar sua cotidiana leitura da Bíblia, ou do livro do paraíso como chama, para passear com a neta no Parque da Redenção.

- A Chica adora o bairro Bom Fim, lá ela se sente mais a vontade. O triste é que ela não encontra mais os velhos conhecidos, pois todos já faleceram. Mas mesmo sem ver os antigos amigos, só o fato de andar pelo parque e caminhar pelas ruas que ela caminhou por quase 80 anos ela já fica contente – explica Miriam, filha de Célia Leitão, menina que Chica foi babá des dos 10 anos de idade.

Para Ana Francisca, alem da óbvia urbanização, o Bom Fim de 1922 não mudou tanto assim em comparação ao Bom Fim de 2010.

- É claro que existe mais construções, mais carros, menos natureza e mais pobreza. Porém, o ar interiorano e tranqüilo do bairro continua o mesmo. Isso na minha visão de pessoa velha, né. Meus bisnetos já me falaram que lá tem muita “noite” boa, mas eu só enxergo a calmaria – brinca.

A babá de 10 anos que entrou para a família Leitão e com eles vive até hoje, teve por quase 80 anos o bairro Bom Fim como moradia. Para ela, as ruas bucólicas, as construções nostálgicas e o “pequeno vasto verde” que cobre o bairro Bom Fim são sinônimos de algo chamado casa.

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