quarta-feira, 19 de maio de 2010

Trocando o crochê pelo computador

Uma iniciativa da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, em parceria com o Conselho Municipal do Idoso, tornou ainda mais fácil a inclusão digital na terceira idade.

O COMUI promove trimestralmente cursos de iniciação à informática para senhoras e senhores, onde as aulas são ministradas por estagiários treinados por um instrutor capacitado. Os telecentros estão espalhados por todo o município e totalizam 34 unidades, o que facilita a locomoção dos idosos até o ponto de encontro para as aulas.

Segundo Carla Gut Nassif, coordenadora geral dos telecentros, a iniciativa do secretário Nereu D'ávila é mais um instrumento para a inclusão digital na terceira idade. O sucesso do projeto reflete no número de inscrições gerenciadas pelo COMUI, que registra aproximadamente 200 interessados por mês.


Telecentro Leonardo Murialdo: vovôs computadorizados
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A Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Segurança Urbana é responsável por um projeto de ensino da informática para a terceira idade. É no Telecentro Leonardo Murialdo, na Rua Vidal de Negreiros, 583, em Porto Alegre, que a oportunidade de aprendizado para esse público é posta em prática. Lá o ensino tradicional é deixado de lado, cedendo lugar a um ambiente descontraído e focado exclusivamente na informatização de senhores e senhoras.

Na sala 6 do telecentro estão disponíveis dez computadores, os quais, a princípio, seriam utilizados por uma turma de dez alunos. Mas devido à grande procura, agora existem duas turmas– uma no turno da manhã e a outra no turno da tarde. As máquinas são divididas entre todos os alunos durante o curso e o diferencial, segundo Jairo Vaz, representante da Secretaria, é a didática de ensino especial: a escolha dos monitores do curso, assim como a linguagem do conteúdo, foram estruturadas após uma ampla pesquisa pedagógica sobre a terceira idade.

De acordo com Maria Costa Jacinto, coordenadora de ensino do Telecentro de Formação – local onde os monitores dos cursos são capacitados – é preciso, acima de tudo, ter paciência para ensinar o conteúdo e também é preciso paciência, por parte dos idosos, para aprender. Isto é, não basta apenas gostar de informática, é preciso principalmente gostar das pessoas.

- Fazia tempo que eu estava querendo aprender essas coisas de informática. Meu objetivo no curso é principalmente entender e conseguir fazer esses serviços de banco, pagamentos de contas e ficar a par da minha ficha no INSS – relatou Marilene de Souza Cardoso, 54 anos.


Assista ao vídeo:
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Uolita El Hawat, moradora do bairro Partenon, buscou o telecentro motivada pela vontade de aprender a fazer compras online, de falar com os filhos, que moram em Santa Catarina, e pela vontade de aprender a utilizar e-mail e de buscar receitas culinárias na internet. É surpreendente o entusiasmo da senhora de 78 anos que já queria saber como poderia escolher um notebook e a melhor opção de conexão com a internet.

Além do trabalho básico – 13 aulas de uma hora e meia cada com certificado –, existe a possibilidade dos alunos do Leonardo Murialdo repetirem o curso quando julgarem necessário, sem taxa alguma, e ainda agendarem para utilizar o laboratório do local por uma hora. Para finalizar o curso, é realizada a cerimônia de formatura dos estudantes de todos os telecentros de Porto Alegre.

Foto de Fernanda Ferrão Evaristo
Foi por curiosidade que as amigas Jandira, Helena, Júlia e Terezinha (da esquerda para a direita, na fila da frente) procuraram o curso de informática


Procempa: foco na psicologia de ensino do idoso
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A iniciativa, contudo, não é exclusiva do Telecentro Leonardo Murialdo. Desde 2008, também a Procempa, empresa de tecnologia de informática ligada à Prefeitura de Porto Alegre, passou a oferecer um curso gratuito de informática focado exclusivamente na terceira idade. Normalmente o número de vagas é de 33 e as aulas ocorrem no Centro de Capacitação da instituição (Telecentro Paulo Freire da Câmara Municipal de Porto Alegre).

O público alvo da Procempa é idoso, mas heterogêneo sob diversos aspectos. São selecionados os participantes quanto: à escolaridade (indo de semi-analfabetos até formados em curso superior); à habilidade digital (testada em um pequeno exame feito junto à inscrição); e quanto à destreza (analisada por profissionais capacitados e psicólogos).

- A maior parte de nós, alunos idosos, sabe de sua condição e sabe de suas limitações, o que pode servir de estímulo pra nos dedicarmos cada vez mais, mas que também muitas vezes serve como um motivo pra nos pressionarmos. No início, eu ficava muito nervosa, como se tivesse algo a provar pra mim mesma e pros outros do grupo. Mas depois, com as conversas com o professor, com o psicólogo e com os colegas, passei a assistir às aulas mais tranquila e sempre me lembrava que se todos estavam lá é porque não sabiam do assunto, queriam aprender. Passei a não ter mais vergonha de errar ou de confundir algumas palavras – comenta Jurema Soares, costureira aposentada de 63 anos e aluna do curso no ano de 2008.

Cabe ressaltar que, de acordo com a Prefeitura, os alunos desta faixa etária geralmente apresentam duas características que não podem passar despercebidas: são bastante sensíveis, isto é, qualquer forma mais formal de comunicação pode provocar desconforto e constrangimento, o que tende a resultar na desistência do curso; têm dificuldades no aprendizado por dois motivos principais – falta de habilidade motora e medo de errar. Portanto, para trabalhar bem com as questões da socialização e da capacidade de absorção das informações é indispensável a presença de profissionais da pedagogia e da psicologia ao longo do curso.

- O que leva o idoso a buscar esse tipo de ensino é, principalmente, a necessidade de convívio com próximo. Eles querem se sentir cada vez mais inseridos na família, nos assuntos dos netos, querem estar ligados com o que eles vêem na TV. É também a forma que eles encontram para fugir da solidão. Com o crescimento das redes sociais, por exemplo, eles passam a expandir o círculo de amizades e a diversificá-lo – declara Ana Maria de Souza, psicóloga formada pela Unisinos e professora especializada em terapia familiar do Instituto Fernando Pessoa.

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